21:20 PM

Tudo que eu sabia sobre as estrelas foi ela quem contou
Seu corpo refletia as cores do luar, os pés descalços valsavam na areia escura
A brisa gelada soprando as ondas do mar, castelos praieiros que a maresia derrubou
Eu era cavaleiro marinho a serviço do rei, ela era minha armadura.

Eu era tantos que hoje nem sei, se era eu mesmo naquela rua
Mendigando a poesia viva de cada dia, devolvendo sorrisos aos homens de bem
Toda noite, na mesma hora, em lugares diferentes, ela surgia eminente: quase nua
A natureza inteira celebrava aquele momento, e o sol nascia pra brincar também.

Depois ela ia embora como quem é filha do vento, no primeiro sopro do dia
O mundo adormecia na esperança de sonhar com ela, que tanto sabia sobre mim
Por ela fui pirata e cigano, inclusive o primeiro humano a conhecer a poesia
Enquanto eu era a dança e a melodia, a tempestade e a calmaria, ela era o festim.

Sobre devaneios, dislexia e as rosas no varal.

O universo é uma ilha girando em torno de si mesma, assim como as valsas que acontecem na madrugada, assim como as notas perdidas de uma sinfonia, o cantar dos pássaros na manhã. Se você buscar refúgio nas coisas que te fazem bem um dia elas te farão mal, pois estarão aos poucos se transformando em tudo aquilo que te fez procurar um refúgio, tome muito cuidado com o que deseja. As rosas enxutas no varal exalam o perfume das ondas marinhas, eu era um leão marinho certo dia, outra vez eu era dois (porque não sabia a diferença), já fui tantas coisas que hoje preferia nunca ter saído de casa, e de fato nunca saí.
Quando busco dentro de mim um sentido para todas essas coisas que crescem e acontecem a única coisa que encontro é a mesma coisa de sempre: mais coisas nascendo como um jardim de coisas que ainda não foram nomeadas, nem sequer apalpadas, soltas por aí. A vida é uma palavra solta, e eu era a palavra solta de todas as vidas ao mesmo tempo, e nem sabia me soletrar. De vez em quando fazia um sentido ou outro, mas quase nunca era impossível entender que aquilo tudo era justamente o que não parecia ser, eu era tão louco quanto você. Eu não tinha dor pra dar.
Especialista em vazios e abstratos, conheci o mundo através de sua música mestiça que fazia minha pele coçar. A cada nota que ouvia meu peito abria mais um pouco, pro verdadeiro sentido das coisas me invadir, me dilacerar. Fiz de meu corpo a foz do mundo, paralelas que se cruzam no meu olhar, são duas janelas escancaradas na beira da alma, como toda dama que apodrece na janela, esperando a vida passar.

No one will ever see. This side reflected.

Tudo começa sempre no beijo,
Mas que ele não seja sempre nos lábios-cereja,
Porque o óbvio a mortifica e ela deseja a surpresa,
O ato que lhe faça justiça.

Que teu beijo, pois, seja às vezes na superfície interna do pulso,
Onde veias de sangue azul chamam o olhar e provam que a pele é sensível;
Às vezes, no canto esquecido abaixo da orelha,
Que não é nem pescoço nem face, nem amor nem desejo

É algo entre mundos, e estar entre mundos é da natureza da mulher
De cabelos carmesins, cobre ou dourado-fogo.
Fica, pois, entre os mundos dela, como entre os lábios, entre os braços, entre os seios e afinal entre á cicatriz.

Sem pressa, pois para amar uma ruiva é preciso queimar como boa madeira no inverno
Por toda uma noite, aquecendo a casa,
Crepitando baixo, estremecendo sempre até as cinzas.

Kamila A. Costa

Far from Refuge

Far from Refuge

de Thiago Gerloff

Sobre poder, cicatrizes, e a beleza humana.

Um paraíso natural,beleza pura
como ver de perto a aurora boreal
algo que surpreende à primeira vista
a cicatriz,que percorre um caminho em sua coluna, uma fatia, uma listra.

Junto a uma pinta logo ao lado,outra na ventre
a pele de bronze macia,com o brilho certo
O sorriso,tanto o próprio como o que brilha nas janelas de sua alma
Encanta e conquista por sua vivacidade, a cada olhar desperto.

Como uma obra de arte moderna,as curvas
que saltam aos olhos até às visões mais turvas
Como uma bela melodia, da mais tranquila ao solo de guitarra que faz tremer o coração
A música guardada em cada pulsação.

Camilla Mendes Rossette Baptista.

Sobre as manifestações musicais e o futuro da existência humana.

A música é o centro do universo, aquele sentimento que invade nossa mente num simples acorde introdutório e explode no refrão é o que nos faz entender melhor as coisas que giram ao nosso redor, e as que não giram também. É impossível exprimir a energia que cada melodia exerce no universo pois cada ser humano é uma ilha isolada de si mesmo, a milhas e milhas de qualquer lugar. Sendo assim aquele sentimento de “essa música foi escrita pra mim” é completamente recíproco, pois a música é como a água: ocupa a forma do recipiente.
Através das manifestações musicais podemos transmitir tudo aquilo que o cérebro não consegue captar por outros meios, as imagens sensoriais que uma música é capaz de criar são superiores aos textos narrativos, já que a construção do espaço será obra diretamente da sua mente, enquanto um texto conta com a orientação de um agente externo. Para alcançarmos a plenitude musical precisamos nos desprender do universo material e ceder espaço ao surrealismo que se refugia dentro de nossa alma, com medo de ser esmagado pelas mazelas da vida real. Até mesmo quando a humanidade for somente um ponto cego na história da existência, a música prevalecerá.