Don’t Forget Me

Enquanto ela dança, o vazio das cores
A estranha face de uma lua sem nome, um corpo quase febril
Em seu peito a raiz apodrece, e com ela meus antigos amores
Eu era sangue suor e escuro, e ainda era metade de abril

E o tempo se foi, e junto com ele a esperança de renascer das dores
Sinto saudade das tardes que não respirei o ar da incerteza juvenil
E bailando ela partiu, e partiu-me em diversos sabores
Um gosto amargo na boca, o sangue borrado no peito viril

Hoje sou paisagem empoeirada na janela dos tempos
Eu conhecia as ruas do teu rosto, eu sabia teu nome inteiro
A cada instante que respiro de novo, apago de minh’alma outros momentos
Em que estive no inferno da alma, lugar passageiro
E eis que surge ao longe uma imagem qualquer, avistada por dois olhos atentos
São os ventos da solidão que carregam a alma, e ainda é Janeiro.

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Auto Retrato

Tudo o que Camillo queria era um pedaço da perfeição
Profissão perigosa essa: professar o inexistente
Induzir a alma ao conforto da queda, se contentar com o presente
Presenciar o parto do amor verdadeiro, partir com um reino de pedras na mão

E de antemão um pequeno conselho: não ser persistente
Que água mole e pedra dura é conversa fiada, teoria da conspiração
Porque a pedra, assim com a perda, machuca qualquer coração
E a água, assim como a mágoa, afoga e mata a esperança da gente.

Ao fim da jornada o jornal impresso, na euforia do regresso Camillo arrisca uma afirmação:
– Tudo que é eterno só é assim quando no fim a gente mente
Porque a mente, ainda que inteligente, não entende tudo que sente
E quando de repente chamamos pela eternidade, nos responde a solidão.

Contagem progressiva.

Um, dois, três: o relógio contava, e descartava um dia por vez
Levanta (o coração), boceja (os problemas), escova (a alma), e vai andando devagar.
E só pra não se atrasar o relógio avisa: quatro, cinco, seis
Ainda nem era primavera e já era hora de se reinventar.

Marcava o caminho com migalhas da alma, pra quando voltar
Pra votar já tinha idade, mas preferia ser burguês.
Sete, oito, nove: o relógio prometia que um dia iria parar
Enquanto não cumpria a promessa, lá se vai mais um freguês.

Chegava em casa e encontrava a alma naquele estado peculiar, o eterno “talvez”
Chuva, chaveiro, chuveiro, chinelo, manchete: assistindo a vida num camarote particular
A televisão que nunca avisava quando ia desligar: cinco, quatro, três
De nós dois até o zero o relógio parou, achou melhor não continuar.

Explosão de sentimentos, por Rafaella Mota.

Amar é sofrer
Perder, ter, conquistar e querer
Se tenho a ti não me falta nada
Em meio ao sonho de amar
Caminho contigo nessa jornada

Eis aquele que teme meu amor
tem pavor, horror guarda medo e rancor
Talvez não se importe com esse sentimento
No lugar do coração, tem tijolo e cimento

Diga-me o quanto se importa
E até onde seria capaz de ir
Em alma plena, nunca morta
Seja meu motivo pra sorrir.

Em poucas palavras posso traduzir
Que o amor nada mais é, do que carnaval
Grito de guerra, veneno fatal.

Rafaella

Tudo o que Rafaella queria era dormir em paz,
E tanto faz o amanhã pra ela, que tanto faz pra ser alguém
Que certo dia quis um sentido bom pra sentir, e não achou ninguém
Agora vive aos poucos, calada, quieta
Colhendo as dores que o mundo traz.

E digo mais, ai daquele que julgar demais o sofrimento dela
Porque cada um sabe a cela que vive, a dor que carrega
E se chora a menina, é porque o fardo da rotina às vezes pesa demais
Por isso ao fechar os olhos e fazer sua reza
Tudo que Rafaella pede a seja lá for é para dormir em paz.

Canção do Martírio, por Matheus Seabra.

Minha mulher tem barreiras nas quais eu não podia entrar,
Os cadeados que aqui tranqueiam não tranqueiam como lá.

Nosso amor tinha mais sorrisos,
Nossas brigas mais louvores
Nosso sexo mais gemidos,
Nossas traições mais horrores.

Em lágrimar, sozinho, à noite,
Menos prazer eu encontro aqui do que lá,
Minha mulher tinha barreiras nas quais eu não podia entrar.

Minha mulher tem sensores,
Dos quais não ousava tocar,
Em lágrimar, sozinho, à noite,
Minha mulher tem barreiras, nas quais eu não podia entrar.

Não permita meu Deus que eu morra,
Sem que aquele corpo volte a tocar,
Sem que prove dos sabores que por aqui não consigo achar,
Sem entrar nas barreiras das quais eu não podia entrar.

Penumbra, por Matheus Seabra.

Luz. Aquela penumbra de ouro entrelaçada no canto do seu cubo gigante,
com você lá, agachado. Sujeira que se alastra em seu corpo pardo durante
meses se corroendo em lágrimas, lágrimas essas diferentes das que já
foram. A ópera pornográfica de Kubrick toma conta da estratosfera do
quarto. Você ultrapassa as linhas da maturidade de uma uma forma tão
simples, escrevo sinais e não tragédias.

Adriana

Adriana era feliz e não sabia.
Seu segredo? não saber demais.

Feel Good Inc.

Sentado na ponta da alma costuro horizontes com a palma da mão, e o coração na boca
A cada pôr do sol que vivo, me certifico de não durar muito tempo
Porque a vida, se bem vivida, ainda que seja pouca
É como uma folha em queda livre, valsando ao som dos moinhos de vento.