La Valse des Monstres

Quando ela passa na praça, o descompasso das horas
A pele morena explodindo em auroras, maliciosa quimera
Quem me dera mapear tua beleza, converter tua memória
Destilar tua glória latente no recipiente que coubera.

Ai daquele que ousar usar os olhos daquela fera
Que apesar de tão bela, vive em constante mutação
E antes que mudasse a estação, em sua alma cresceu a hera 
Era uma vez uma daquelas histórias eternas, recheadas de perdição

Perdida entre as calçadas da lua, ela quase nua se pôs a dançar
Assim devagar, dando às cores do luar uma roupagem mais bela
Graciosa donzela, faltava fôlego pra aplaudi-la de pé
Até quem não tinha fé subia na capela só pra melhor enxergar
Era Gabriela cor de aquarela, que amanhecia o dia num assombroso bailar.

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Dirty Harry

Eu preciso de uma arma pra me manter seguro
Segundo a teoria eu não teria chances de revidar
Revirar o lixo e alimentar o bicho que vive em cima do muro
Mudar as regras do mundo, regar uma planta no mar.

Eles não têm chance, porque tudo o que eu faço é dançar
Danificaram meu espaço, restringiram meus passos por milha
Humilharam o homem errado, aprovaram o contrato sem assinar
Deixaram a pistola esquentar, escutaram o uivar da matilha. 

Sou uma mochila lotada de bombas, quase pronta pra estourar
Não troco de corpo desde que o copo secou, embora seja segredo
Ainda guardo um paladar azedo, pra quando o sangue coagular
E ainda preciso me armar, pra protegê-los de mim mesmo.

Rue des Cascades

Minha vida inteira foi divida em atos, fatos não consumados que jamais consumi
Costumava fugir da verdade, que na verdade era o espelho gritando comigo
Acostumado a sentir saudade, saudava as cores com as flores do abrigo
Tricotava amores em meu peito corrompido, meu castelo querido que custei construir.

Amanda era Catarina que era Sabrina, que foi a mulher da minha vida
Das que já estavam de saída, nenhuma delas avisou quando iria partir
Passava na esquina o trio do amor verdadeiro: eram elas, fui lá conferir
Confundir minha calma com a dança das almas, dilatar a ferida.

Mas como todo carnaval que se preze, um dia a festa termina
Ter nas mãos o desejo e a prece não traz de volta o aroma da flor
E se na metade do espetáculo acenderem a luz e fecharem a cortina
É porque o palhaço – apesar do cansaço – ainda acredita na força do amor.

Apanhador de linha, por Matheus Seabra.

Talvez possamos ser felizes, se claro você quiser. A quem eu quero
enganar, sempre sou quem fecho a porta para a felicidade, não sei o
motivo, apenas a fecho. Amargurado, egoísta, materialista, prático,
estilo felino. Não aproxime-se muito, fique atrás desta linha que
representa o limite de minha zona de conforto. Se ultrapassar, não
sairei correndo, nunca o farei, mas não me force a ser alguém que eu
não queira.

C’était ici

Carolina era uma dessas mulheres que sorria devagar
Vagava entre as esquinas da rua à procura de solidão, 
Sua cura era a fagulha acesa na mesa, o cigarro na mão
E se não queimava a alma inteira, era por medo de se afogar. 

Faltava pouco pra desandar, abraçar seus medos e ir de encontro ao chão
Chamava a melancolia pelo nome; sentia fome, sono e falta de ar
Armava armadilhas para qualquer transeunte que ocupasse o seu lugar
Alugava sonhos, pesadelos medonhos que transitavam em seu coração.

E assim caminhava rumo ao horizonte que nunca dorme
Seu riso, um filete de sangue quente escorrendo no rosto
Esquentava aqueles que estivessem em contato com ela

Quem me dera provar daqueles lábios o efêmero gosto
Gastar meus últimos suspiros de vida com aquela donzela
Que apesar de bela, ao soprar da vela ainda morre.

 

Before The Beginning

Ainda era noite quando os primeiros raios de sol cortaram-lhe a pele, o seblante denunciava suas idas e vindas no espaço-tempo, não era um viajante qualquer. O céu agora travava uma batalha infindável com as ondas do oceano e a cada suspiro que ele dava uma nova cor se aliava ao horizonte, era o fim do firmamento e o começo do caos completo. Mirando a linha que dividia – já não divide mais – o céu e o mar, ele fecha os olhos e guarda dentro de si o que virá a ser o último suspiro de vida da raça humana, chegou a hora de conhecer o olho do furacão, não havia escolha, nada mais haveria de ser.
Sem mais delongas: Puxou o gatilho, a pistola não disparou. O que estava pensando ao tentar fugir de si mesmo? olhou para a imensidão da queda e esperou alguns minutos até ter a certeza de que não sobreviveria ao impacto causado pelos devaneios de sua mente e fechou os olhos, “só mais uma vez” apelou inutilmente, o sol finalmente completara a sua valsa e de agora em diante nada mais era: nem o nada, nem o mais. Usou o último suspiro para relembrar o dia em que acordou pela primeira vez e se entregou ao oceano da alma.

Morreu afogado dentro de si mesmo.

Gabriela Andrini.

Gabriela Andrini era não era um tipo qualquer
Meio menina (como toda ela é), daquelas que não sabem conter o riso
Manda somente naquilo que quer, e o que não quer faz na base do improviso
E se for preciso, prende os cabelos, arregaça as mangas a vai à luta
Porque a conduta – apesar de tão bruta – faz daquela moça uma nova mulher.

Ana.

Ana é uma das poucas pessoas que ainda acredita no amor verdadeiro
E por pouco não desandou, quando a realidade bateu em sua porta
Mas como boa samaritana que é, Ana plantava sonhos em sua horta
O mundo lá fora entrou, jantou, e agradeceu pela estadia
Pois ao raiar daquele mesmo dia – quem diria – a alegria havia batido primeiro

Conversas de chá, por Matheus Seabra.

- Qué namora moço
- Quê?
Pernas na cama se enroscam