Sobre recomeços, com Mariana Gil.

Quase mulher
É assim que me sinto
 
Aceitando as grandes mudanças 
Que me fazem amadurecer
Deixando a antiga menina pra trás
 
E tanto faz se tenho fé
Ou se no escuro eu minto
Disfarçando a vontade de não ter
Um eu que não seja você
Garantindo meu minuto de paz
 
Vou me moldando nisso que chamam de vida
Escutando a música que compus sozinha
E sorrindo, vivo meus desejos
Sonhando, vivo cantando, a solidão que não é minha
 
E se por acaso me acharem atrevida
Explicando que a luta não me faz rainha
E sofrendo, vivo do meu jeito
Transformando, vivo escrevendo, com a inspiração que estiver na linha
 
E depois de tanto me pressionar
Seguindo em frente, sem direção
Surge a resposta no horizonte
Que não era meu
Hoje ergo os olhos e consigo gritar:
quem realmente me guia sou eu!

Sobre palíndromos e a volta de roxy carmichael

Quando conheci Roxy Carmichael pensei que fosse 
Um daqueles esmaltes maltados, enlatados devagar
Talvez pelo codinome futurista de artista que faz pose
Ou pela camisa indecisa, que não sabe a hora de voltar.

Queria ser Maria Tomei, tomei liberdade e quis perguntar 
Só pra vê-la à mercê de um porquê, sem saber por que
Portei nas mãos um buquê, enquanto ela descalça no sofá
Assistia um filme do Godard, ou Ethan Hawke hackeando a tevê

Te ver e não te viver é como não dizer que vejo livros em você
Me livro do livre arbítrio pra arbitrar teu jogo, que o juiz roubou
Fiz tuas salas e pus na mala, selei a carta e mandei pro guichê 
Parece clichê, mas Roxy Carmichael sumiu do apê e nunca mais voltou.

 

I Am the Doctor

Dama, que faz meus dois corações baterem em descompasso
Tenho esperado há mais de dois mil anos pela tua companhia
Quem diria que um dia minha TARDIS vazia viajaria no teu espaço
E num espasmo dançante tua presença vibrante seria minha melodia

Por ti eu queimaria dois sóis só pra dizer teu nome uma última vez
E talvez os anjos lamentadores falassem de amores se olhassem pra ti
Van Gogh teve sorte de pintar tuas flores, que eram as cores da lucidez
Rose Tyler choraria na despedida, na Baía Bad Wolf, ao te ver partir.

Por você eu regeneraria até que o silêncio caísse e com ele o meu nome
Segundo a lenda nem um senhor do tempo pode parar o que fizestes aqui
Se teu riso riscar meu abrigo, nascerá um filho, e casará com River Song
E nos campos de Trenzalore gritaremos juntos: Gerônimo, Allons-Y! 

Henrietta

A vontade que dá ao olhar pro passado
Não é a de viver novamente o presente
Ou resgatar dos mortos aquele finado
Mas a de construir um futuro diferente 

Porque ao contemplar o antigo fracasso
O brinquedo quebrado confunde o brincante
E nesse transe a mente se perde no acaso
Causando na gente um deja vu inconstante.

Sendo assim é melhor não andar descalço
Que a estrada é longa e confunde o navegante
Não adianta olhar pra baixo procurando um pedaço
Se a parte inteira te espera no horizonte adiante.

O mocho e a gatinha

Amanda mandou me contar que não usa chapéu
Subiu no bote verde ervilha e foi pra ilha cantarolar
Pôs a nota de um milha na vasilha, e a grana a granel
Olhou pro céu de baunilha e embarcou na cor do luar.

Já em alto mar naquela hora, puxou a viola de lata e latiu ao léu
“Que linda gata! que linda gata Deus me deu!” dizia a marchinha
Imagina o espanto quando aquele canto rouco tocou meu papel
Às vezes penso que Amanda é meu Mocho, e eu sou sua gatinha.

Swallowing the Decibels

Eu quero rasgar o tecido esquecido do passado embaçado
E navegar outros males, afundar meus mares em outro navio
Roubar dos rios a brevidade das fases, fazer da tarde um palhaço
Que reside em qualquer espetáculo, basta chamá-lo com um assovio.

Conheci o preço de pecar demais, mas não pelos meus pecados
Peguei carona na onda mais alta, senti falta do que não era meu
Teus olhos eram facas cegas desfiando minha alma em pedaços
Quando teus seios eram labirintos de neve, eu era o novelo de Teseu.

Foi assim que no fim firmei amizade com o vento, meu companheiro fiel
Findei meus tratos com teus laços e fui embora atrás de qualquer vontade
Aquela que habitou minha poesia hoje é uma das Três Marias, perdidas no céu
E dos lábios salgados que jorraram teus beijos de mel, sobraram os favos da saudade.

Exercício n°1

Somente a gente que sente a mente mentir
Entende o oponente que chora na despedida
E com a alma dividida, ciente da hora de ir
A boca desprende do dente, e roga por aquela vida.

Porque pouco importa a porta se a chave não estiver ali
Aliada ao presente, contemplando o conforto do abrigo
O guerreiro ferido e doente, quase morto dentro de si
Também conhece e concorda com a discórdia do inimigo.

Encoded Love

Nasce o sol, e não dura mais que um amor.
E me pergunto com quantos sóis se faz uma esperança,
Se a cada raio de luz que sai dessa estrela,
Também sai de minha veia o teu calor
No final do dia seremos dois nomes na areia, dolorosa lembrança.

Se a dor, como embaixadora de todos os males, curiosa herança
Trouxer de volta a chama do arrebol, virtuoso cardume 
É porque a flor presume a cor da idade,
E faz da saudade um pedaço da infância.
No ritual plural da distância, que faz da ânsia um antigo costume.

Da sacada vi nosso amor se perder no escuro da rua
Nasceu a lua, e durou uma madrugada inteira.
Lembra aquela carta de maio que chegou por engano? era sua
Um envelope amassado com cuidado,
E nele guardado nosso último grão de areia.

Mariana, por Matheus Seabra

Mariana mulher dos olhos pintados
Garota da tatuagem nos ombros desenhados
Pegou meu coração guardou dentro do bolso
Me fez amá-la sem nunca tê-la visto, só ouço

Todo dia conversavamos até o amanhecer
Mas na verdade eu só estava aqui olhando ela viver
Só sei que o sinto por ela não é uma coisa passageira
Porque noite passada pensei nela madrugada inteira

Mariana não acreditava no amor quando eu entrei em seu caminho
Ela é a tigresa e eu sou apenas um pequeno leãozinho

Eu sei porque você fugiu
Só não consegui entender
Foi quando a saudade começou a surgir
Que percebi o que estava a perder

Sexy Little Thing

É na orgia da vida que a dívida se apaga
Se a prega te entrega, é a falta dela
Que te fode.
Fome, miséria, artéria castrada
Ser ativo na festa não é pra quem paga,
É pra quem pode.

Porque é na hora do aperto, no fim da estrada
Que a cera te queima, e a pele reza
Enquanto a vela dorme.
Governo, gorjeta, sarjeta ilustrada
Sadismo passivo que não se propaga,
Se passa por osmose.