Poema retirado de um script para um filme amador.

O mocinho
quando sozinho 
não sabe o caminho

A mocinha
quando sozinha
não anda na linha

O vilão
quando tem coração
mata por compaixão

A história
quando tem escória 
vem sem dedicatória

O autor
quando é ator
esconde a dor

O fim
quando é assim
foi feito pra mim:

E foram infelizes
feito duas raízes
e suas cicatrizes;

(A gente
quando mente
dura para sempre).

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As funções da crença

Após o dia de luta
fatigado da labuta
num gesto carente 
dou a mão ao vidente

Depois da consulta
veio o preço da multa:
– seu caso é urgente,
melhor ficar ciente.

Depois disso o velho biruta
puxou do saco uma fruta:
– tome, é o seu presente!
mas não jogue fora a semente.

Devorei com tanta gula
sem ler os dizeres da bula,
senti um ardor diferente
e fui reclamar ao gerente.

Já na esquina da rua
Para a minha loucura
um anúncio inseguro
estava escrito no muro

“parcelamos a sua cura
em uma vez, sem juros;
mas estamos de greve,
voltaremos em breve.”

Senti o corpo mais leve
e carregado pela febre
fui marchando sem direção
rumo à barraca do vilão

Veio um carro na contramão. 

Morri nas mãos do transeunte
o policial num ato descrente
mostrou o laudo pro ancião
causa da morte: superstição.

As funções do mar

Era uma vez
vejam vocês
dois amigos
e um abrigo.

O sol,
o mar
e a lua
a dialogar:

– sou só
– sou lar
– sou tua
– vem cá

Então veio o contratempo.

A lua em perigo
diante do castigo
aceitou a viuvez
sem contar até três.

O sol solitário
sem itinerário
cansou de chorar
e bebeu o mar.

O mar, doce mar;
Aprendeu a nadar
e virou intermediário
do casal apaixonado.

Era uma vez
vejam vocês
um amor antigo
e seu elo perdido.

E assim nasceu o firmamento.

As funções da esperança

A esperança,
essa criança;
que me acolhe
mas mora longe.

Diante a ânsia
da lembrança
ela me engole
e se esconde.

Em sua elegância
sem discrepância 
meus mares sacode
e faz jorrar a fonte

– isso me cansa!
– anda, olhe! 
– para onde?
– para o norte.

Mesmo que à distância
Ela concede a dança;
E douramos ao bronze
sob esse mar defronte. 

Que se chama horizonte.

As funções da sereia

A menina nua
de pele ferida,
é misteriosa sereia
a povoar minhas ilhas.

Dizia que a lua
era o rei Midas,
e as estrelas
suas filhas.

Sua carne crua,
alimentando vidas;
desmanchava na areia
desfazendo as trilhas.

A menina da rua,
de dor escondida;
era minha santa ceia,
sagrada armadilha.

Ela poeira,
eu poesia.

Chamada a cobrar

às vezes o passado,
esse parente ruim;
quebra o contrato
e liga pra mim.

a nossa conversa,
que nunca tem fim;
vou contar depressa
tim tim por tim tim.

é mais ou menos assim:

– tá ocupado?
– acho que sim.
– vem pro meu lado.
– não to afim.

às vezes o passado,
destruidor do meu lar;
liga com o número privado
e a chamada é a cobrar.

As funções do ser

Minha sina eu assino e ensino
Meu alfabeto usa pouca vogal
Sou igreja que reza sem sino
Desde menino sou esse plural

Gaiola de versos, viveiro de rimas
Sou as cinzas do pássaro ancestral
Que voa sem asas, ave de rapina
Vestindo as cores da aurora boreal

Sou o grão de luz que brota da terra
E a armadura é antiquada e medieval
Porque quando o nó da garganta aperta
É a palavra incerta que exorciza meu mal

Sou poeta, 
e ponto final.

Ana Guadalupe

Lá vem Ana Guadalupe
de guarda-chuva retrô;
entra calada no metrô
e esbarra com a trupe

– Que cor é essa? alguém abordou
– É bordô! respondeu depressa

Encostou na janela
E foi praticar tricô
Mas alguém sentou
Pro desespero dela

-Que calor! disse a donzela
-Igualmente! ela sussurrou

Lá vai Ana Guadaloop
de sobretudo e capuz;
sob a luz dos trilhos
tricotando a própria cruz

Eu andarilho,
Ana andaluz.

O homem moderno

O homem moderno
de terno e gravata;
sua conta bancária
é seu amor eterno.

Saca o status quo
no caixa expresso 
eis o seu quiprocó
se obteve sucesso:

– Este universo
é meu bem maior.
Não vendo,
não troco
nem empresto.

O homem moderno
de terno e gravata;
sua alma descalça
não merece chinelo.

Insolação

A saudade, essa fera
Fere e arde devagar
Invade sem avalará
O ser que lhe venera

Saudações.

São saudades velhas
Que se perdem por lá
Ladrões de alma, quiçá
Que não cabem na cela.

O sal da terra,
o sol do cão.

Insolação.