Teoria de todas as coisas

I.
Ao passar numa daquelas
lojas que vendem animais
domésticos me deparei com
algo inédito e peculiar: uma
galinha presa na gaiola
andando pra lá e pra cá
atrás de um ovo que
havia acabado de chocar

II.
Se o ovo rolava pro lado
oposto ela com o bico
fazia tec tec tec e trazia
de volta o tesouro para
perto de si e foi aí
que eu percebi que
a danada continuava
a fazer tec tec tec até
quebrar a camada fina
e jorrar a gema dourada
que a mãe assassina
comeria com casca e tudo.

III.
Seria absurdo dizer que
o animal em sua
plenitude cometeu
essa atitude brutal
por pura coincidência
e não por causa da
fome similar à do
bicho homem também
mantido em cativeiro
e ensinado a andar na
linha e pelas entrelinhas
deste novo conceito de
existência diferente da
ciência agora sabemos
que quem nasceu
primeiro não foi o
ovo nem a galinha e
sim a sobrevivência.

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Amélie Poulain dois ponto zero

Garota quando te vi descer
a Rue des Cascades descalça
desafiando os cascalhos do
chão de vestido branco florido
sob o clarão da lua minguante
foi como se naquele instante a
rua fosse um vídeo em stop
motion que eu por sorte
tive a chance de assistir
ao vivo, as gotas de chuva
caíam como luva no tecido
leve que grudava na tua
pele revelando tua silhueta
inebriante e cada gota de
suor escaldante que em
queda livre caía da minha
testa era uma estrela em
festa a pingar nesta poesia
minguante que assim como
a lua itinerante te espiava
pela brecha entre as cumulus
nimbus que iam subindo como
balões atônitos no céu de
azeviche e o resto do
universo fora de órbita
girava tonto enquanto
eu seguia ao teu encontro
subindo a cascade street.

Vida real ponto com

I.
Quando você diz em
todas as redes sociais
que vai pra balada e
posta uma foto toda
maquiada a garotada
do outro lado do monitor
num gesto desconfiado
espera até a madrugada
pra ver se você vai dar
check-in no four square
ou se prefere postar uma
foto no instagram dizendo
que amanhã tem mais mas
a gente sabe que você não
faz o tipo festeira e a sua
mãe não te deixa voltar
tarde demais por causa
da reportagem que a globo
reprisou algumas horas atrás.

II.
É melhor deitar no
sofá e assistir ao
corujão senão o
pessoal não vai
cair na tua história
e se não me falha
a memória agora
neste exato instante
você deveria estar
bastante bêbada e
drogada num
bacanal na casa de
praia dos teus tios de
segundo grau que
viajaram pra Paris.

III.
E todas essas coisas que
você diz mas não faz fez
de você a rainha dos nerds
e oprimidos e dos que
tomam comprimidos e os
de cabelo comprido que
ouvem metal, e depois de
sentir o peso descomunal
dessa idolatria você até
queria fazer uma enquete
no twitter pra saber o
motivo do teu nome
grudar feito chiclete
nos comentários do
pessoal e por que só
nas fotos seminuas com
decote e fio dental a
galera dá um close; mas
não nos leve a mal é que
afinal todo mundo espera
algo mais de alguém que
espera algo mais de
um sábado à noite.

Vaso literário

É engraçado como o vaso
sanitário e aquele amor
mal acabado são idênticos
parece nojento mas quase
todo mundo tem o hábito
imundo de olhar para a merda
antes de dar descarga e ainda
tem gente que fala enquanto o
dejeto humano desce pelo
cano assim mesmo é o amor
mal acabado por mais que
cheire mal aquela podridão
a gente faz questão de dar
tchau antes de ver o
sentimento desaparecer
como num passe de mágica
na descarga do tempo
(parece piada mas ainda
há quem faça esse exercício
nojento por passatempo).

Cantiga de roda dois ponto zero

Na rua sempre tem uma
pedrinha redonda ou
pontuda que a gente
chuta pra passar o tempo
até o momento em que
a pedra chuta a gente e
segue em frente pro pé
de outra pessoa e daí em
diante nenhuma pedrinha é
boa o bastante pra substituir
aquela que seria a pedra da
nossa vida então a gente arrisca
seguir sozinho e tenta achar no
meio caminho uma pedra parecida
porque a mesma só dura mesmo
uma partida de amarelinha e nessa
brincadeira que é a vida menina você
foi a minha primeira pedrinha.

Sobre telhados e vizinhos

Às vezes a lua quase
cheia bate em cheio
no telhado do meu
vizinho que está sempre
ocupado demais bebendo
vinho e lendo Paulo Coelho
na lareira e por mais
que ele queira tomar
vergonha na cara e
reservar um tempo
para subir no telhado
e deitado de barriga
pra cima deixar a lua
quase cheia fazer seu
trabalho o meu vizinho
tadinho prefere encontrar
nos livros do Paulo Coelho
o segredo da vida que passa
despercebida entre luas quase
cheias que batem em cheio no
telhado e custam menos que
uma lareira ou um livro de
auto-ajuda autografado.

Amor de peixe

Amor é quando o peixe de água salgada
morde o anzol só pra ser fisgado e servido
frito no mesmo prato de porcelana florido 
que outrora foi o túmulo de sua amada.

Dia Dorin, Noite Neon

Se você fosse uma cor
seria daquelas que não
aparecem na aquarela
nem na caixa de lápis da
faber castell mesmo a de
vinte e quatro cores nem
se a gente misturasse
todas elas e Van Gogh só
arrancou a orelha porque
cansou de ouvir as pessoas
dizerem que você era feia e
ele arrancaria as duas mãos
se não pudesse beber de tua
fonte de inspiração, e eu que
não sou Van Gogh nem trabalho
na faber castell te daria meu
coração embrulhado em papel
machê e me chame de clichê
se é o que parece, não sou
expert em cores divinas mas
vou gritar em alto e bom som
que o artista que te assina me
disse que menina você é neon.

Margot

Margot, quando te vi dançar sozinha no deserto
de dirty harry naquela madrugada azul de abril
eu era feel good inc. e ainda não sabia ao certo
se haviam kids with guns up on melancholy hill

When you’re close to me na praia de plástico
Você me fala que agora chegou a hora talvez
De alcançarmos o topo do horizonte estático
E deixar de lado as memórias dos Demon Days

Windmill, Windmill for the land,
para um lugar melhor dessa vez.

Achados e perdidos

I.
Cícero Rodrigues da Silva,
quando vi teu nome na lista
de desaparecidos pensei na
tua família nos teus amigos
e todo o resto mas confesso
que por algum motivo te achei
parecido comigo não por causa
do sorriso mas pelo desejo aflito
de ser resgatado e encontrado
com vida o mais rápido possível.

II.
Cícero Rodrigues da Silva,
quando você for despachado
da seção de achados e perdidos
tua família e os teus amigos e o
escambau vão fingir que é natal
e te dar presentes bonitos e o
teu sorriso vai parecer menos
com o meu é que ainda não
deu pra colocarem a minha
foto na caixa de leite ou no
jornal porque Cícero a gente
se parece muito mas teu
mundo é diferente do meu.

III.
Aqui a gente desaparece e
ninguém percebe porque na
verdade a gente não some
só come o pão que o diabo
amassou e Cícero nem pão
você come mas se um dia
na padaria da esquina da
sua casa você ver minha
foto desbotada na caixinha
de leite recorte e faça uma
figurinha e cole no caderno
e vá pra escolinha aprender
o alfabeto, e se a polícia não
achar o esconderijo do ladrão
que te pôs na cruz saiba que
na minha religião Cícero você
vale mais que o menino Jesus.