Era um garoto que como eu também era eu

hoje depois de muito procrastinar
o choro que havia reservado para
alguma ocasião especial como um
jantar de ano novo ou uma briga de
natal me pus a desperdiçar dezoito
gotas do estoque principal de lágrimas
gordas por causa do bom e velho bate
boca dominical e antes que ousasse
abrir outra garrafa do líquido cristalino
primário corri pro guarda-roupa e peguei
pra ler o diário de um menino que também
tinha vários problemas e escrevia poemas
de madrugada e me falava baixinho pra
não desviar do caminho que ele havia
traçado e o mais engraçado é que apesar
de pensarmos tão diferente um do outro
somos praticamente sementes de árvores
heterogêneas plantadas no mesmo corpo
ele é a gema germinada do passado e eu
a clara e a coragem do ovo e se no
futuro eu de novo no escuro precisar
de um porto seguro pra atracar meu
choro não ei de procurar outro amigo
senão aquele garoto inseguro de
sorriso esquisito que se parece tanto
comigo mas prefere rock alternativo.

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De lá pra cá

eu quase nada sei sobre
esses homens do deserto
que decerto também quase
nada devem saber sobre mim

portando joias de marfim
eles de turbante montam
elefantes gigantes viciados
em amendoim enquanto
eu de manhã pego atrasado
o ônibus lotado do motorista
elefante viciado em música ruim

e nada de serpente saindo da
cesta ou passear de camelo
aos sábados o máximo que
se consegue adquirir do
continente asiático por aqui
é uma esfiha do habib’s ou
um kibe mal temperado

e pra quem disse que no
Brasil não se fazem Oasis
como em Cholistão basta
visitar o Rio quarenta graus
e experimentar a sensação
de ser um grão de areia
em estado de sublimação

namastê não mais que mil
e uma noites por um real
e no final da programação
um jantar com Ali Babá e
seus quarenta ladrões na
sacada do Copacabana
Palace e um cálice de
Masala Chai entre as
refeições (e pros sultões
de Brunei um gole ou três
de caldo de cana caiana
antes de cair na cama)

eu quase nada sei sobre
esses homens do deserto
que vêm de longe a pé em
caravanas só pra ouvirem João
Gilberto e Mutantes enquanto
comem o acarajé da baiana
com caipirinha de manga.

Thais

Thais você enrolada no lençol
branco de bolinhas laranjas
exalando o aroma do pêssego
misturado ao jasmim parece
beijo roubado ligeiro e pra
mim já não há diferença entre
a maciez da polpa e o do néctar
da tua boca que diz tantas coisas
que eu na certa ainda não ouvi e
entre pêra uva maçã ou salada
mista na dúvida é melhor bancar o
otimista e preferir beber água da
chuva ou brincar de bola de gude
e foi assim ao te ver enrolada no
lençol de bolinhas laranjas deitada
na cama seminua ao som de
elephant gun do Beirut que eu
descobri que Thais você é
branca como a lua minguante e
vermelha como o midnight sun
mas tem gosto de tuti frutti.

Soneto francês

se eu fosse um poema teria versos quebrados
com pontas duplas e de dupla nacionalidade
e até usaria uma coroa de espinhos de verdade
só pra andar pelas águas de passaporte carimbado

de rimas brancas e pretas eu seria estampado
em bandeiras e faixas a favor da diversidade
e roubaria da revolução francesa a fraternidade
afim de arrastar os outros pilares pro meu lado

se eu fosse um poema teria palavras minadas
nascidas pra explodirem no coração do oponente
e ensinadas a morrerem em campo de batalha

faria da poesia um exército de estrofes cientes
de que ser forte não é saber esquivar da navalha
e sim tirá-la do corte pra guerrear novamente.

Uma lágrima no poema

caiu uma lágrima no poema
caiu d’uma árvore de copa larga
de qualquer floresta primitiva
exata como a matemática e
estática como uma estatística

caiu uma lágrima no poema
caiu d’um olho de íris sem cor
de qualquer rosto sem mobília
salgada como a água da praia
e deserta como uma ilha

caiu uma lágrima de verdade
num poema de mentira caiu
e borrou a tinta da caneta bic
caiu faminta como uma besta
e ligeira como um clique

caiu como o tac antes do tic
num bar com nome de drink
leve como uma pena e
pequena como um link
uma lágrima no poema

caiu em todas as redes sociais
o sextape compartilhado no mural
indicado ao Oscar de melhor cena
estrelando como atriz principal
a lágrima que caiu no poema.

Caleidoscópio

Às vezes a vida
Me diz:
– calma, leão!
Eu logo em seguida
Digo pra ela:
– camaleão!

Oração de bolso

que a solidão me leve pra
qualquer lugar que me caiba
uma vila viela ou encruzilhada
e que eu não saiba como voltar

que o amor me negue colo e 
leite pra que eu tenha sede e
desde cedo saiba tirar do meu
próprio peito tudo o que precisar

que a vida seja como uma pizza de
mussarela divida em fatias desiguais
e que eu não queira mais do que
o necessário pra sentir o gosto dela

que a saudade seja um mar de água
salgada cheio de peixes à espera de 
uma isca humana ingênua pra devorar
e que eu nunca tenha medo de pescar.

Metafísica líquida

um poema que fale de um
poema que fale de clichês
que todo mundo sabe fazer
um poema que fale de um
poeta que não faça poemas
que todo mundo sabe ler

um poema que cale a sociedade
que mate a fome e a sede e o resto
de protesto ordem e regresso
um poeta ignorante que não aceite
a reforma protestante e a ortográfica
e saiba rimar amor com saudade

um poema que seja gente como a gente
mentiroso e metido a inteligente e de
all star limpinho com cadarço bicolor
um poeta que escreva com hidrocor
no muro da escola uma trova
e assine a obra com seu username

um poeta que não tenha final nem meio
tão feio quando o poema que o fez
sem graça sem farsa sem asas de cera
um poema que ande descalço em casa
que não faça somente poetas de mulher
de versos crus mal passados na brasa
tão nus quanto a poesia que os calça
tão azuis como um amarelo qualquer.

Nathalia

Nathalia você sorrindo
de boca fechada ou aberta
debruçada na janela
aberta ou fechada
deixa tudo mais lindo

indo e vindo o teu cabelo
parece trigo colhido cedo
escolhido a dedo pelo céu
pra ser servido de manhã
com mel aquecido e maçã

no quintal da minha casa tem
uma árvore de copa larga
e nela além de frutas e folhas
tem teu nome escrito no tronco

tua pele branca feito neve
deve ter gosto de sorvete
dos que só vendem em outra galáxia
e chegam por encomenda via sedex
Nathalia você parece a via-láctea

Noventa e seis bits

por trás do seu já não se fazem
existe uma pá de coisas antigas
que você não tem mas insiste
em fazer briga e dizer que
habita a linha tênue entre o
hipster saudosista e o démodé.

você diz que na sua época
os desenhos animados
eram engraçados e bem feitos
e bate no peito quando abre o armário
pra mostrar sua coleção de brinquedos

você queria ter vivido nos anos oitenta
por causa da música de qualidade
e tem saudades de quem morreu
gente que nem seu avô conheceu

você diz que a sua vida
é um filme do John Hughes
com roteiro do Kerouac
e trilha sonora dos Smiths
mas todo mundo sabe que
entre quatro paredes rola
até Rouge na sua playlist.

agora quando você vier
abrir o bico pra falar seus
mil e um motivos de não
ter comprado um Playstation
três eu vou te dar um tiro pra
você parar de encher o saco e
entender de uma vez que não há
nada mais chato que nostálgicos
nascidos em noventa e seis.