Ricardo

Ricardo queria morrer, não importava como ou quando. Seus vizinhos e companheiros de trabalho sempre estavam preparados para receberem no meio da noite um telefonema – seja do hospital ou do porteiro do prédio – alertando sobre outra quase morte de Ricardo, que sempre deixava na caixa de entrada de todos na lista de contatos uma cópia em pdf da sua carta de despedida impecável (era sempre a mesma com pequenas alterações) e uma lista de canções que justificavam seu estado de espírito e explicavam seus motivos de não querer continuar vivo num mundo tão injusto e desprovido de sentido. Ricardo tinha argumentos infalíveis contra qualquer manifestação de alegria que resolvesse brotar no seu peito, era o sujeito mais cotado pela própria morte para substituí-la em caso de emergência. Pra ele tirar a esperança de um amanhã melhor das pessoas era como roubar doce de criança, e o pior: desde pequeno Ricardo é assim, melancólico por natureza.
A última vez que vi Ricardo ele estava no mesmo engarrafamento que eu dizendo a si mesmo que iria chegar atrasado no trabalho e que daria tudo pra naquele momento ter um infarto ou qualquer ataque que o levasse direto pro outro lado. Ricardo sempre queria morrer, não importava como ou quanto. Enquanto isso não muito longe dali na Emergência 24hrs Maria Antonieta, 45 anos, 2 filhos, falecia após meses lutando contra um câncer de mama; no quarto ao lado o velho Joaquim comia sua porção matinal de mingau de aveia ao som de música clássica (que ele odiava, mas aprendeu a gostar com o tempo) e deixava pra trás uma coleção de figurinhas de jogadores de futebol e uma netinha que estava para nascer. Também batiam as botas um casal de formigas que passeavam em lua de mel pelo corredor do hospital e o gato persa de Maria Antonieta – que já estava há 3 meses sem leite. A morte foi acolhedora com todos eles, se mostrou uma anfitriã de mãos cheias e os conduziu pela mansão dos mortos na jangada que Ricardo tanto almejava conhecer. Acontece que para a morte não importava se Ricardo queria ou merecia morrer, ele só iria passar dessa pra melhor quando ela bem quisesse (e se quisesse); Ricardo e a morte eram como dois piratas egoístas de tripulações diferentes caçando o mesmo tesouro.

Antes de abrir o sinal na avenida Ricardo retruca:

– Essa tal de morte é mesmo uma filha da puta.

Era a chance de ouro que eu precisava pra abaixar o vidro e gritar bem no meio do seu ouvido direito minha opinião a respeito daquele caso morto:

– Relaxa Ricardo, vocês foram feitos um para o outro. Assumam logo esse namoro antes que seja tarde e façam como toda gente: sejam felizes para sempre (ou até que a morte os separe).

roteiro para esquecer uma ex namorada

roteiro para esquecer uma ex namorada

cena 1

cenário:
três homens de altura mediana sentados
numa sala de espera de aproximadamente
doze metros quadrados com flores de plástico
num jarro de dinastia desconhecida
e um cesto de revistas velhas com acidentes
e notícias datadas de agosto do ano passado
e poltronas amarelo-escarro amortecidas
que serão esvaziadas conforme os nomes
pela ordem de chegada forem anunciados

cena 2

antes de dar início (ou não)
à famosa cirurgia de remoção do “nós”
dentro do consultório o paciente x
de pernas abertas e pupilas dilatadas
conjuga para a médica (lê-se ex-namorada)
um confuso pronome indefinido
logo após o plural é substituído
com o uso de luvas esterilizadas
por um vazio atroz e maligno
costurado de forma indelicada

cena 3

para que a operação tenha efeito
o enfermo deve primeiro procurar
não entender direito a causa perdida
em casos de suspeita de recaída
consumir dois comprimidos de placebo
ou um copo cheio de qualquer bebida”.

cena 4

os pacientes y e z ainda na recepção
distraídos com as fofocas da revista
não percebem x sair devagar pela porta
de pirulito e adesivos recreativos na mão
acenando para o próximo indivíduo da lista
que com ar de turista acena de volta

cena 5

close na boca do paciente
repetir trilha sonora da cena três:
nós já fomos felizes para sempre
agora é a vez de vocês”.

(p.s.: antes do elenco em ordem alfabética
pra finalizar com chave de ouro a cena
exibir de forma minimalista e estética
a frase: “continua no próximo poema”).

Haicai azul-madrugada

A noite
sucede a astúcia
e precede o açoite.

Hotel San Francisco

a célebre luz no fim do túnel
que sempre aparece na hora
exata da morte junto com um
flashback de tudo o que não foi
feito em vida gravado numa fita
cassete parece uma espécie de
pedágio em que se paga primeiro
e só depois se sabe se há do outro
lado do lendário véu um espaço
fixo na escuridão lotado de diabos
e outros bichos ou o tão sonhado
pedaço do paraíso mas isso
de pagar tão caro pelo céu só
acontece com quem não conhece
o Hotel San Francisco que aos
domingos serve coquetel de
camarão como cortesia para
os primeiros clientes que
reservarem a suíte presidencial
e onde felizmente o único clarão
que se vê a olho nu é o letreiro
azul que indica a entrada e saída
dos veículos no portão principal
e pisca tão mal quanto uma
árvore antiga de natal.

Procissão, com Igor Zarnistrelli

palavras redondas, perfeitas
frases que vem teoremas
epitáfios em frases estreitas
noções que adornam, diademas

curiosos mantras de antigas seitas
palavras doces, tira-teimas
trovões que lampejam poemas
entoados por vozes animalescas

grandiosas imagens dantescas
cantadas por anjos em órbitas extremas.
diabólicas miragens carnavalescas
estampadas no riso insólito das hienas

dias bons de lágrimas contidas em si mesmas
articuladas orações em afrescos e tinta fresca
cavalos de Troia famintos pelo sangue de Helena
cavalos marinhos falantes num canal de Veneza

o relicário do punhal de Romeu e Julieta
a flecha de Páris que viaja num tiro de destreza
o cocar que enfeita os cabelos de Iracema
e o primeiro sopro de vida da mãe natureza

palavras redondas, perfeitas
frases que vem teoremas
epitáfios em frases estreitas
noções que adornam, algemas

Dores hereditárias, com Igor Zarnistrelli

planeta em ciclos, este
côngruos círculos
do começo ao fim, vínculos

o arfar, inflar
desinflar, suspirar
essa dor no peito

um tio que nunca conheci
meu avô que partiu há segundos

ambos mortos, da mesma forma e do mesmo jeito
ambos presos, na mesma cela do mesmo mundo

o tossir, cuspir
suspirar, suportar
esse ardor profundo.

David

David era fraco feito isopor.
parecia um boneco sem cor de
plástico com no máximo um
metro e vinte e não era esperto
o suficiente pra jogar no time da
gente sempre que ele vinha passar
o fim de semana na casa de vovó Zitinha
ninguém tinha coragem de emprestar os
brinquedos pro coitado com medo de
que ele arrancasse as pernas ou os braços
e dava pena vê-lo sentado num banco
sozinho nas festas de aniversário enquanto
todos os outros primos jogavam super Mario
trancados no quarto até que num domingo
ensolarado no peito de David o coração-
relógio começou a bater mais forte ou
seja o leilão havia começado e foi a morte
quem deu o primeiro lance e não tinha plano A
nem B que o fizesse ter uma chance de sair
daquele câncer a partir dali era só questão de
tempo pra David cair no esquecimento já
que em seus quatorze anos não houveram
amores sem fim amigos sinceros ou algo do
tipo sendo assim coube a mim o título de
guardião dos seus últimos resquícios e a
tarefa de converter seu sorriso em versos
quebradiços para estsa oração
que é na verdade um pedido
de perdão por durante o enterro
não ter conseguido pôr escondido
todos os meus brinquedos mais
bonitos no fundo do seu caixão.

Literassíntese

não existe poesia sem atmosfera.
sem ela as palavras-sementes
são somente grãos de euforia
que não germinam na terra

é preciso abrir as cortinas
pro dia entrar na alma pela janela
com toneladas de pólen e poeira
cheios de células e gametas
dispostos a fecundar a poesia
há muito esquecida na geladeira

para realizar a fotossíntese completa
o poema não necessita de calor ou água
basta que saiba de alguma maneira
extrair do poeta a clorofila
tal como o látex da seringueira

e por mais que se queira
num gesto de covardia
apelar pra ciência
e criar palavras transgênicas
à prova de pragas e bactérias
mesmo com tanta tecnologia
não existe poesia sem atmosfera.

Belisa

Belisa tocando La Valse des Monstres no
acordeon verde cor de maçã cabelo
solto e pijama listrado anunciando os
primeiros raios da manhã é mais ma
chérie que qualquer Amélie Poulain
e dizem que nem o próprio Yann
Tiersen toca tão bem quanto ela
que baila sozinha no quarto ao som
do quarto compasso da valsa muda
da natureza e embala a música que
abre o terceiro ato do primeiro voo
das borboletas e diante de tanta
beleza ali reunida a única certeza
que o povo tem é de que Curitiba
só amanhece de bem com a vida
quando toca na avenida aquele
virtuoso som que Belisa em demi-
plié tece como cem meias coloridas
de crochê no vai e vem do acordeon.

noite.jpg

dois filetes de luz laranja mimo
resultados do contato mínimo entre
o poste o vidro e a persiana pintam
a estante dos livros e as paredes do
edifício azul translúcido que outrora
era revestido de verde musgo

no desktop um quadro roxo misturado
com vermelho e amarelo desbotado
sem atalhos para arquivos ou programas
sem cronogramas ou previsões climáticas
somente o nada emoldurado

de olhos fechados rosto molhado
e ventilador da Arno ligado no nível três
experimentando o entusiasmo divino
de estar do outro lado do espelho
dançando um tango argentino
com a lebre de março ou o chapeleiro

(fora do quarto nenhum gato preto no muro
ou sinal no beco escuro de algum bandido
nenhum bêbado engasgado falando sozinho
nem chorinho de cavaco ou recém-nascido
somente o resto do mundo esculpido).