Quarla

quarla foi deitado ao
teu lado no gramado
do conjunto residencial
marquês do paraná
que eu descobri que
amar é conseguir
enxergar estrelas
num céu nublado
de quinta-feira
e nenhuma lua
inteira vale mais
que o teu sorriso
minguante por
isso quarla façamos
um trato de hoje
em diante só haverá
cometas cadentes
e abraços azulados
no nosso presépio
estelar quando
estivermos juntos
novamente deitados
no gramado do
conjunto residencial
marquês do paraná.

post-mortem

debruçado na sacada
diante do cemitério
de prédios e automóveis
eu ainda espero teu
espectro de ar esquelético
atravessar a cavalo
o hemisfério norte
pra inverter meus
pólos magnéticos
ou me dar um beijo
de boa sorte.

Ma(temática), com Margot Oliveira

seja lá
o que
for, (se)
remos sempre
in di vi sí veis. (a
menos que alm(a)
entem a gra(vida)de
no olho da tempestade)
*nesse caso então
– em (ser)enidade –
t
om
ba
remos
((inaudíveis)).

Nostralgia

certos lugares nunca saem de moda
como a copa da goiabeira do quintal
da lavadeira ou a casa de vovó
com piso de madeira e vista pro matagal
onde vovô sentado em sua cadeira especial
todo fim de tarde antes do jantar
contava histórias sobre batalhas
e combates travados entre o bem
e o mal pra gente na sala de estar
enquanto na mesa o prato quente
de sopa e o pedaço de pão com
manteiga esperavam nossos dentes
de leite que viravam presas afiadas
seduzidas pelo deleite da ceia onde
mesmo estando de barriga cheia
ninguém recusava um pedaço
de bolo de fubá e esses domingos
e feriados que passo a milhas e
milhas de qualquer lugar no sofá
de olhos fechados tentando
reviver o passado cada vez
mais me fazem pensar
que certas mobílias nunca
deveriam mudar de lugar.

Da janela

de madrugada
em silêncio profundo
e rodeada pelo negrume
do céu impune
a lua navega desnorteada
por entre o cardume
de vagabundos
e vaga-lumes.

R.I.P

No cemitério:

entre os finados
jazia vivo
o sepultado

“Wake up, Donnie”

acordar ao som
dos pratos sendo lavados
definitivamente não é bom
ouvir o atrito da panela
com a esponja de aço
nesse caso específico
pode fazer ir por água abaixo
aquele dia talvez magnífico

acordar animado
ouvindo here comes the sun
deve ser lindo, porém arriscado
afinal nunca se sabe se lá fora
o sol chegou atrasado
confuso com o fuso horário
ou se os Beatles sentados na janela
cantando em acapella e uníssono
here comes the sun and i say it’s all right
vão roubar meus últimos minutos de sono

acordar com o despertador
gritando o seu refrão preferido
é vacilo
repetir o mesmo prato
durante meses
é como não misturar doce e salgado
você pode me dizer mil vezes
que manter uma rotina é saudável
mas eu não acredito

acordar com grito de criança: é ok
(mas só dessa vez)

o ideal pra mim
é acordar no fim
da tarde
entre o agora
e o quase
(ou dormir
a sós e
acordar a três)

acordar algemado: não sei
(aqui quem manda é o freguês)

Sobre esquecer as chaves em casa

Salvador Dalí cruzando a Visconde com
a Vinte e Quatro de Maio trajado de cão
andaluz vê um monte de estudantes do
Bom Jesus fardados e enfadados fumando
um maço de cigarros mentolados deitados
na praça Rui Barbosa e encosta num canto
sem sombra um tanto assustado ao perceber
que as rosas de plástico que brotam do asfalto
exalam o mesmo aroma artificial de tabaco que
se encontra no pulmão do cidadão sentado no
banco e nos dentes amarelados dos alunos do
ensino médio e diante do tédio da quinta-feira
ele ainda ébrio segue em direção ao telefone
público da esquina e disca 3022-2324 e pede
o combo mais barato do Vininha pra comer
sozinho no caminho enquanto dá um rolê pela
Linha Turismo e impressionado com o realismo
dos mendigos esfomeados em contraste com a
riqueza da cidade ele sente saudades de casa
e caça nos bolsos da calça uma chave de ouro
ou um relógio de bolso derretido que o leve
de volta para o plano onírico situado entre A
Girafa em Chamas e O Grande Masturbador
tomando ciência da inexistência de tal souvenir
Salvador começou a vagar à procura de alguma
nuvem em forma de porta já que coincidentemente
naquela hora o último biarticulado havia passado
em frente ao passeio público e não havia outro
modo seguro de ir embora foi quando Dalí percebeu
que a partir dali assim como os relógios pendurados
no muro em A Persistência da Memória ele estava
trancado no próprio futuro pelo lado de fora.