cartão postal

pela neve camuflado
entre as montanhas de pele
o teu vale encantado

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barbarella

não deve ser fácil
viver na terra
e morar no espaço

madrigal azul-calcinha

ainda seminua de
seios arqueados
abre as cortinas e
deixa os raios de
sol queimarem teu
corpo imaculado
de forma astuta
enquanto lá fora
todo pintado de azul-
calcinha o último
sábado de maio
amanhece um pouco
menos nublado
por tua culpa.

ataraxia

o mundo
certamente
será talvez um
lugar mais feliz
quando ela
pessoalmente
pela primeira vez
me chamar
de mon petit.

Ménage

virgem dos lábios de
sangue teu corpo
sedento em transe
transgride as leis
da física quântica
e transa ao mesmo
tempo com o vento
o mar e as plantas
de tal forma que diante
deste carnaval noturno já
não sabemos distinguir
entre o tronco soturno
das árvores de copa larga
e teus cabelos árcades
ondulados de escuro fio
nem tampouco se tuas
pernas cruzadas apontadas
pro centro da terra foram
esculpidas em carne e osso
ou se são na verdade
raízes compridas fincadas
no fundo do rio.

Sobre (re)descobrir horizontes

antes dela a vida
era uma caravela
de tripulação
não confirmada
munida apenas de
um mapa ilegível e
uma bússola desnorteada
com disco de leitura
meramente ilustrativo
atracada na beira do mar
ou seja
já desconfiava-se
que a terra fosse uma
espécie de esfera
aquática em eterno
estado de mutação
repleta de tesouros
enigmáticos e lugares
desconhecidos só
não haviam ainda
motivos pra navegar.

azul-saudade

nas regiões abissais
do teu azul-piscina
moram sereias nuas
e peixes transparentes
de cauda luminosa
nativos da lua

já o teu azul-royal
é comportado
mas se solta
quando já nua você
deusa de vênus
chama as fadas
cor-de-rosa
pra pintarem um
retrato meu sorrindo
no fundo do quintal

cada pincelada torta
que Van Gogh deu em
A Noite Estrelada
foi uma tentativa falha
de reproduzir com
exatidão e performance
o teu azul-madrugada

e as gotas de chuva
que não fazem alarde
quando vão embora
caindo mudas lá fora
são resquícios vivos
do teu azul-saudade
que me colore agora.

Aresta

quando teus
olhos de lince
refletiram nos
meus negros
de piche
minha alma se
transformou
num eterno
caleidoscópio
de vidros internos
coloridos com
um azul-desejo
que ao certo
ainda não existe.

caribbean blue

não há no mar lugar
melhor pra guardar
meus pedaços de sol
e pequenas alvoradas
senão nas mechas
amenas que se formam
por trás de tuas
ondas cinza azuladas

Ratiug

tarde demais pra pedir um setlist
adequado no rádio ou tirar a fita
cassete de seu eterno estado de rec
involuntário o jeito é continuarmos aqui
aninhados e aquecidos como folhas de chá
neste quarto de azulejo florido azul néon
assoprando o cruzeiro do sul pro lado de lá.