Matilda

É madrugada no deserto de Utopia-02, portando apenas seu bacamarte e uma bolsa de couro surrada com alguns mantimentos, Matilda segue viagem rumo aos feudos do Velho Mundo onde sua próxima vítima a espera para o abate na Praça do Escambo. Os ventos do leste sopram areia vermelha nos olhos de Pixel, seu búfalo estelar de estimação, dificultando um pouco a trajetória, mas isso não é nada que afete sua pontualidade; ela, como toda boa Filha da Areia, segue à risca o primeiro mandamento da Aliança Gatuna, que diz: sempre estar no lugar errado na hora certa.
As poucas estrelas-velhas visíveis no céu púrpura denunciavam uma manhã de pouca neblina, propícia para o comércio de escravos. Quando recebe propostas de abatimento dessa natureza Matilda, em nome de seu povo, não aceita pagamentos ou recompensas – faz por amor à camisa; afinal para ela não há nada mais prazeroso que sentir o aroma da pólvora misturado ao sangue de um mercador. Conrado II, sua vítima atual, jamais saberá por que morreu ou quem o matou – é o segundo mandamento da Aliança: quanto mais perguntas fizer, menos respostas terá. Após atravessar a Ponte da Promessa Matilda pula do búfalo, arruma seu Stetson com a ponta do dedo, tira um punhado de ração da bolsa, põe na boca de Pixel e recita sua pequena oração pessoal:

– Que o chumbo penetre na alma do inimigo e os espíritos da areia estejam comigo. Amém.

Ao longe os pássaros das planícies de sal cantavam o hino da nação vermelha, convidando nossa amazona para uma breve estadia no berço da escravidão espacial.

– Você precisa se alimentar bem, Pixel. Coma bastante frutas vulcânicas, a menos que goste de carne de mercador.

Olhou para o relógio, faltavam exatamente dezenove minutos para a abertura dos portões da Praça do escambo.

– É melhor pegarmos um atalho pela muralha, afinal não queremos nos atrasar, não é mesmo?

Por um momento lembrou-se de quando era criança e brincava de “caça ao mercador” com seus pais, sentia saudades dos tempos de bonança antes da Grande Traição.
Após o devaneio, montou novamente em seu búfalo azul-madrugada e em passos cronometrados seguiu rumo ao desconhecido de cabeça baixa e sua honra de gatuna ferida. Havia descumprido o terceiro e último mandamento da Aliança: jamais olhar pra trás.

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hemorragia

lá fora agora a lua
dobradura minguante
faz com a carne que é tua
origamis de sangue

Netuno

deitado defronte ao
pôr do sol com os
ouvidos imersos no
firmamento celestial
eu quase posso ouvir
teu coração marinho
batendo surdo no núcleo
do ventre maternal
pedindo freneticamente
aos outros deuses do
olimpo que desfaçam
pra sempre o vínculo
ancestral entre o
umbigo sem fundo
do mundo e o teu
cordão umbilical.

Fitzpleasure

entre as aspas
tatuadas nas costas
de porcelana nenhum
provérbio oriental ou
frase de efeito decorada
somente sua espinha
dorsal à meia luz
sobreposta na cama
e alguns gemidos
azuis escritos com o
suor da noite passada.

na praia de muro alto

no horizonte vertical
nadando sincronizados
os nossos lábios de sal

haicai de batata

o nosso amor é assim
ela gosta de purê
e eu prefiro pudim

gregório

quem me vê no fim
das tardes deitado
nos campos de trigo
exibindo minha liberdade
inerte de ser humano
não desconfia que estou
na verdade lamentando
escondido o fato de não
ter nascido na pele de
uma harpia peruana ou
um búfalo americano.

tourada

no primeiro domingo de
junho na Plaza de Las Ventas
como combinado você
virá desfilando em trajes
de luces azuis com detalhes
dourados trazendo a última
rosa magenta dos emirados
árabes no canto da boca
enquanto na arquibancada
a plateia enlouquecida gritará
xingamentos estrangeiros e
onomatopeias desconhecidas
como numa partida de baseball
esperando pelo dado momento
em que alguém irá abrir as
grades e me jogar sem roupas
na arena feito uma minhoca
no anzol para que possamos
finalmente resolver nossas
pequenas diferenças históricas
sob o sangrento sol espanhol.

2013

recém saído do ovo
sem penas ou planos de voo
um outro novo ano novo