nighthawks

éramos dez
dedos curtos
monocromáticos
suados e entrelaçados
balançando no ar
involuntariamente
e a rua mato grosso
– nossa filha adotada-
cheia de pés ocultos
e braços articulados
andava nua e descalça
de mãos dadas com a gente

moto-perpétuo

em algum lugar da via
láctea controladas por
cordas mágicas transparentes
e dançando freneticamente
como marionetes de marfim
estrelas de carbono e hélio
explodem silenciosamente
gerando novas supernovas
azuladas incandescentes
que apesar de efêmeras
causam efeitos perenes
no curso do universo
(tempo espaço e afins)
e trabalham em moto-
perpétuo usando energia
própria assim como os
votos de amor eterno que
outrora você fez pra mim

today, all night long

there won’t be any space between
my shaky red tongue
and your sweaty white skin.

Bosque Reinhard Maack, com Isabelle Eller

cena i

você e eu sob o luar espesso
de uma noite de janeiro.
eu arranco ligeiro uma flor
do concreto e coloco no bolso
do seu casaco napolitano anti
alérgico de lã de carneiro

cena ii

a flor, uma flor ordinária
dessas catalogadas em todos
os parques e praças da cidade
tem um número par de pétalas
porque a quinta caiu quando
você pendurou o casaco no
cabide barato do banheiro

cena iii

deitada no quarto com
alegrias (e alergias)
formigando sua bochecha
você admira a flor e recita
o bem me quer em voz baixa
quando a flor acaba eu cato
as pétalas no asfalto e tento
fazer as contas de cabeça
mas você não deixa

cena iv

sem nunca contar o
resultado você se muda
pra outro estado e me diz
num email pra procurar no
nosso esconderijo abandonado
pendurado no galho mais
alto do limoeiro o seu antigo
casaco napolitano anti
alérgico de lã de carneiro

cena v

dentro do bolso direito do
casaco embrulhado num
papel A4 amassado uma
nova flor ordinária (dessa
vez com cinco pétalas
intactas) e uma carta
escrita às pressas com
caneta azul esferográfica

cena vi

“me encontre em montauk.
data: onze de março,
numa casa de veraneio
situada próxima à costa.
traga cabides baratos, meu
casaco e o limoeiro. e ah,
era bem me quer, a resposta.”

insert coin to continue

baby você de vestido azul
escuro cantando losing my
religion no karaokê do bar
me faz querer roubar uma
harley davidson só pra poder
andar por aí sem rumo atrás de
fumo ou qualquer pó ilícito que
possa grudar em nossas mucosas
nasais e alimentar nossos vícios
sobre o balcão polido de inox
e nessa madrugada gris de novembro
ao som da música certa seríamos vistos
dizendo safadezas ao pé do ouvido e
trocando carícias múltiplas enquanto
fugíamos da polícia após termos
dado três tiros numa prostituta
cuja causa mortis seria ter
borboletas fúcsias tatuadas no cóccix
mas por falta de coragem ou de sorte
nenhum de nós tem uma moeda
sequer sobrando no bolso da jaqueta
surrada pra colocar na jukebox.