urbeversário

“Quanto há de penetra
no dono de sua própria festa?”

(Eduardo Lacerda, Outro dia de folia)

é aniversário da cidade
e nós penetras
que comemos sem
parcimônia os últimos
salgados da mesa
não trouxemos
presentes caros
mas ao contrário
dos convidados
oficialmente
ainda vemos algum
significado e beleza
em bater palmas
sincronicamente
e equilibrar balões
com muita destreza.

(Fotografia de Ricardo Pozzo).

 

Imagem

Anúncios

para Monet

ilustríssimo
hoje em particular
estamos belíssimos
tingidos de luz e como
todo bom quadro
impressionista exigimos
uma lista generosa de
mimos começando por
luvas azuis de gala guarda-
sóis femininos abstratos
uma esquadra de barcos
fenícios batizados com
nossos nomes fictícios e um
cardápio de queijos frutas
e vinhos para o tradicional
piquenique ao fim da
tarde no jardim principal
caso contrário sugerimos
que procure outro casal
ou alguma madame
pálida que se preste a
passear pelo campo
de vestido branco barato
e floppy hat colossal.

pequenos poemas do cotidiano universal

cantarolar refrãos
desconhecidos em
voz alta com o
intuito de chamar
a atenção de
desconhecidos
sentados no
banco do metrô
ou da praça

espichar o pescoço
pra espiar celulares
em busca das tais
mensagens pessoais
demais para serem
ditas pessoalmente

namorar mulheres
de ônibus
que misteriosamente
nunca descem
no mesmo ponto
que o nosso

bater com os
ossos dos dedos em
qualquer superfície
disponível a fim de
transformar o
estresse rotineiro
em algo audível

sair cedo e
chegar tarde
(e não ir
na verdade
a lugar algum
além do
próprio quarto)

amarrar cabelos
amarrar cadarços.

esperança

semente de hera
que brota da alma
de quem espera.

orgasmo

esse ato insensato
de calar a fala
com o falo.

Pedro e o lobo

teu grito fingido
de socorro ecoará
aflito como um
cordeiro pela última
vez no horizonte
e serás mantido
em segredo isolado
num quarto negro ou
acolchoado de algum
hospício sem nome
quando o povo pacífico
do vilarejo descobrir
que és o próprio lobo
travestido de homem.

1822

– companheiros

desconfio que
entre nós só haverá
ordem e progresso
quando resolvermos
trocar os versus
pelos versos.

Pandora

ao violar a promessa
sagrada e destrancar
a trava de ouro etéreo
com a chave de ferro da
curiosidade ao invés de
todos os medos e males
do mundo ocidental
saíram de dentro
da caixa misteriosa
embalagens viscosas
de balas de caramelo
diários abertos em
páginas proibidas
figurinhas repetidas
furtadas dos colegas
do colégio panfletos
aleatórios colecionados
sem motivos concretos
fragmentos verdes-
esmeralda e roxos
acinzentados de uma
aurora boreal bilhetes
não enviados para
amores secretos e
uma baleia jubarte
em tamanho real.

homo poiesis

tudo que respira
inspira.

praça prisma

fiz uma casa pra mim na fresta do banheiro
uma cidade inteira
e uma casa com tapete vinho
cadeiras velhas e janelas
dispostas em ordem alfabética
e almofadas amarelos mostarda
manchadas de vinho

uma casa na fresta do banheiro
e uma cidade inteira dormindo
à espera de qualquer feriado
pra comprarem comidas típicas
nas barraquinhas da praça Osório
como quase fizemos naquele episódio
em novembro do ano passado

fiz uma casa pra mim na fresta do banheiro
de paredes turquesas e goteiras verdes musgo
e um pedaço de madeira que eu achei no lixeiro
pra gente chamar de mesa
e pôr as sacolas do mercado

na fresta do banheiro da casa que eu fiz
à espera de uma nova estação
em almofadas de algodão
manchadas de vinho uruguaio
uma cidade inteira dormindo
“só mais quinze minutos, raios!” eles dizem
porque amanhã não é maio
e hoje ainda é domingo